Dostoiévski e Stekel: O impulso ambulatório.
- alexandremorillas65

- 16 de jan.
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Atualizado: 17 de jan.
Pulkhéria Raskólnikova e a fala compulsiva.
É notória a carta da mãe lida por Raskólnikov, que introduz, em "Crime e Castigo", não somente a estrutura do caráter dessa personagem, mas uma característica marcante na composição do escritor Dostoiévski, que é a torrente de palavras descarregadas por algumas personagens nas epístolas que traduzem o mundo interno em que vivem e o que lhes chamam a atenção no mundo. O uso característico da linguagem, segundo Noam Chomsky, é interno à mente e se dá aos pedaços, em fragmentos, e o indivíduo não fica sequer um minuto sem falar consigo mesmo¹. O monólogo de Molly Bloom, que encerra o "Ulisses", de James Joyce, é o que há de mais próximo do que se passa na cabeça das pessoas, e é daquele caos que passamos a fazer uso da linguagem através da comunicação. Em Dostoiévski, vemos como isso ocorre: basta lermos a ininterrupta oralidade de Golyádkin ou Míshkin. Apesar de a estrutura linear das frases apresentar coerência, isso não quer dizer que a fala esteja comunicando os pensamentos que estão sendo produzidos por uma teia associativa interminável. Pelo contrário, a fala não é aquilo que pensamos, mas uma ínfima parte daquilo que acreditamos transmitir.
Wilhelm Stekel ilustrou um caso² interessante sobre a tagarelice seguida da necessidade de vaguear. O caso começa narrando a mãe da paciente como a agente de um incontrolável impulso para falar pela manhã por cerca de duas horas ininterruptas, (convertidas em caminhadas também de duas horas após ter adquirido uma laringite ) tendo o marido contratado uma pessoa só para ouvi-la. O contágio psíquico desse sintoma acabou atingindo a filha, que também obrigava a mãe a escutá-la. As motivações desse irresistível impulso são decorrentes de questões inconscientes similares à falta de controle das personagens de "O Jogador "diante da roleta. A análise dessa paciente identificou uma obsessão de ordem sexual, revelando a necessidade de olhar para as partes íntimas dos homens, e sua luta acabou por converter esse ato, desperto pela neurose da mãe, em necessidade de falar sem parar, mas esse gatilho materno serviu de pretexto porque a paciente estava evitando a companhia masculina. O meio, seja o núcleo familiar ou a mesa de apostas, sempre serve de gatilho para motivos que há muito tempo estavam inativos no espírito e que esperam uma oportunidade para virem à tona.
Pode-se interpretar o estado quase sonambúlico de Raskólnikov, que o faz perambular Petersburgo de cima a baixo, preso a uma necessidade de caminhar sem rumo, voltado para dentro de seu caos interno, falando predicativamente como um bêbado em voz alta, esbarrando nos transeuntes, como um gatilho acionado pela própria mãe, que deixa evidência do ato impulsivo em despejar nas folhas tudo o que lhe atormenta ou traz esperança e conforto para seu espírito, conforme os acasos da vida vão se ajeitando. Provavelmente, o Direito ao Crime seja um produto filosófico motivado por um sufocamento familiar cuja rotina lhe soava falsa e mesquinha, onde podemos ler, nas entrelinhas, como a mãe procura prostituir a filha para arranjar a vida do irmão, enquanto narra a honra manchada da moça devido às investidas de Svidrigáilov, flagradas por sua esposa. Mas o motivo central desse Direito não pode ser descartado como motor propulsor de questões ligadas ao próprio drama pessoal de Dostoiévski, que reconheceu ser presa de uma culpa desconhecida que o acometia. E isso, transposto ao espírito de Raskólnikov, converge para um sufocamento de ordem incestuosa que remonta à raiz primordial da humanidade, que sela o conflito edípico. O turbilhão de vozes, como podemos ler em Problemas da poética de Dostoiévski, indica um emaranhado que traz em sua unidade o sentido geral dos rumos humanos que, apesar da incoerência aparente, é desta maneira que os povos da Terra se mantêm coesos em suas culturas e gerando sentido. O discurso de Pulkhéria Raskólnikova é fundamental, pois simboliza a turbulenta trajetória interior de um filho que buscava, no crime, uma nova ordem mundial além do Bem e do Mal, mas, como os próprios discípulos de Zaratustra, resolveu recuar ao cume e seguir como uma águia para fora de um mundo que jamais poderia ser encontrado fora de si mesmo.
CHOMSKY, Noam. A ciência da linguagem: conversas com James McGilvray. São Paulo: Editora Unesp, 2014, p.26.
STEKEL, Wilhelm. Atos Impulsivos. Tradução de M. Matthieu. São Paulo: Mestre Jou, 1968. p.22.
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