Dostoiévski : a perversão a serviço dos moralistas.
- alexandremorillas65

- 8 de fev.
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Atualizado: 9 de fev.
O destronamento do rei: dois retratos da comunidade “moral”.
Nas chamadas "novelas siberianas", Dostoiévski tratou de um tema desintegrador do psiquismo humano no sentido de total anulação do indivíduo moral. A perseguição implacável sobre aqueles que são considerados ou se portam diante das pessoas de maneira humilde ocorre através dos predadores de plantão, que não apenas descobrem os pontos fracos desses caracteres, mas calculadamente conseguem alfinetar esses pontos de modo certeiro, com o fito de destruir psicologicamente vidas de terceiros. Dostoiévski tinha um olhar clínico acerca da felicidade para com a desgraça alheia, como podemos ler na passagem do moribundo Marmeladov após seu atropelamento em "Crime e Castigo".
Tal retrato aparece em duas obras escritas enquanto ele ainda estava na Sibéria, que abraçaram esse tema com um tom gogoliano. Tratam-se de "O Sonho do Titio" e "A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes", que inicialmente foram concebidas em episódios isolados para comporem uma única obra¹. Não pretendo aqui me estender muito sobre as duas histórias, mas me ater às características do destronamento de pessoas que se destacam por motivos variados, desde ilustres personalidades honradas por grandes feitos em áreas nobres do saber ou das artes, até os considerados bufões insignificantes, que, no segundo caso, podem ser analisados nas personagens centrais dessas duas obras: o príncipe K. e Iegor Ilitch Rostániev.
Também a análise de seus algozes é de tamanha importância para uma visão geral de um quadro comum dos detratores de reputações em alto grau de perversidade. Tanto o Príncipe K. como Rostániev se apresentam como alvos típicos quando a inocência ou o excesso de benevolência, decorrentes de sentimentos de inferioridade ou culpa, atraem tipos desumanos capazes de cometer as piores injúrias.
O tema do destronamento do rei foi abordado por Sigmund Freud em "Totem e Tabu". A ambivalência de sentimentos aponta uma passagem fundamental que corrobora Dostoiévski, quando Freud observa sentimentos distintos em relação aos mortos:
“Não somos nós, os sobreviventes, que nos alegramos por nos livrarmos do morto; não, nós o pranteamos, mas curiosamente ele se tornou um demônio ruim, que teria satisfação com nossa desgraça, que procura nos causar a morte.”²
Do ponto de vista psicanalítico, o mecanismo de projeção inconsciente neste caso se torna evidente quando os impulsos malignos escolhem o alvo e procuram livrar parte da psique (Ego) da punição do superego – a consciência moral. Assim, a censura enfraquece e os impulsos sádicos encontram os meios para a satisfação dos desejos proibidos sob uma infinita gama de justificativas.
E nas novelas siberianas é que encontramos os típicos e gritantes traços de caráter que delineiam o destronamento, promovendo o ritual sadomasoquista. Em "O Sonho do Titio", Dostoiévski pincela a perversa Mária Alieksándrovna Moskaliova, a primeira-dama de Mordássov, que se aproveita de um desvalido mentalmente para que se case com sua filha, apossando-se de status, dinheiro e posição na sociedade. Todos em Mordássov, que em russo pode estar relacionado à expressão “lançar na fuça”³, sabiam que o príncipe era como um boneco montado: peruca, olho de vidro, perneta e sem dentes, e que, numa inusitada situação, em seu estado mental ouvira alguém dizer a palavra “barrica”, porque se lembrou de alguma conversa com Mária a respeito de tal objeto, mas não tinha a menor condição de suspeitar que estava diante de uma troca de insultos entre esta, que exprimiu a ofensa, e Natália Dmítrievna, comparada a uma barrica. No ápice da ira, Mária Aliéksandrovna entendeu que o príncipe a insultara com a tal palavra, e o “boneco de molas” acabou sendo desmontado verbalmente por ambas as ofendidas e exposto ao ridículo.
Em "A aldeia de Stepántchikovo", a figura de Fomá Fomitch é uma das mais emblemáticas em termos de exploração e tortura psicológica, podendo ser comparada a Pável Aliéksandrovitch Isaev, enteado de Dostoiévski, filho de sua primeira esposa Mária Dmitriévna Isaeva, e que infernizou o segundo casamento do escritor com Anna Grigoriévna, levando esta aos limites da sanidade. Isaev era um provocador mexeriqueiro e causador de intrigas similares àquelas provocadas por Fomá Fomitch, personagem que surgiu muito antes de seu enteado como se este, por ironia do destino, fosse um protótipo “profetizado” pelo escritor.
Dostoiévski descreveu ipsis litteris a estrutura de caráter e os danos que tipos como Isaev geram dentro de um lar, e para incredulidade e indignação de Anna, encontrava o marido de mãos atadas com o dever de suportar tamanha carga debaixo de seu próprio teto. Na ficção, Fomá Fomitch Opískin é um sujeito com fortes sentimentos de inferioridade, um insignificante que abusou do cálculo para seduzir a dona de uma casa e, em desforra, dominar o lar e colocar todos a seus pés, atendendo aos seus caprichos da maneira mais perversa e sádica que se possa imaginar, levando o bondoso Rostániev aos limites da sanidade mental, tamanha as humilhações que sofria, não apenas de Fomá Fomitch, mas da própria mãe, a generala, que levou o ex-criado do falecido general, que o maltratava, para dentro de sua própria casa.
A mãe de Rostániev, que não diferia quase nada de Fomá Fomitch em sadismo e perversão, exercia sobre o humilde coronel Rostániev total controle sobre sua capacidade crítica e compactuava com o criado, promovendo humilhações constantes e mantendo total poder sobre suas decisões. Durante todo o romance, Rostániev é destronado e incapacitado de agir, e Fomá cada vez mais se apodera dos cômodos da casa, fazendo exigências absurdas sob o aval da generala.
As demais personagens em torno do núcleo duro da história se veem atadas, de acordo com seus respectivos interesses e motivações internas, compondo a plateia que assiste imobilizada à desintegração psíquica do pobre coronel. Se “lançar na fuça” encerra que a cidade de Mordássov é um campo minado de mexericos que sustentam a garantia de que “se eu cair, não caio sozinho”, revelando que o sentimento de inferioridade coletivo frente aos ideais de status e poder, que elevam ao nível do fantástico o anseio por posições elevadas, temendo o inevitável inferno que o julgamento maldoso possa causar, permite que a censura psíquica afrouxe consideravelmente, deixando escapar o que há de pior num ser humano moral, é uma questão a se pensar: até que ponto esses moralistas têm em comum com os amorais descritos em "Recordações da casa dos mortos" ?
O mesmo vale para Stepántchikovo. As torturas psicológicas provocadas por Fomá Fomitch e pela generala não estão em um patamar distinto de destruição física e moral do próximo como retratado nas recordações, assim como as verdades lançadas na fuça por Mária Aliéksandrovna Moskaliova e Natália Dmítrievna e a omissão dos circundantes. Neste caso, cabe a máxima de Freud, que disse que o homem é muito mais imoral do que crê, mas também muito mais moral do que sabe. E em comparação aos amorais das recordações de Dostoiévski, os habitantes de Mordássov e Stepántchikovo em certo grau, encontravam-se para além do bem e do mal.
BEZERRA, Paulo. A Grande Gargalhada de Dostoiévski em Dois Sonhos: O Sonho do Titio e Sonhos de Petersburgo em Verso e Proza. In: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Dois Sonhos. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2012. pp. 224-225.
FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 11: Totem e Tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912-1914). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 105.
BEZERRA, Paulo, op.cit., p. 228.
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