Dostoiévski e o homem solitário de Deus.
- alexandremorillas65

- 5 de mar.
- 2 min de leitura
Sombria Noite Branca: como Dostoiévski traduz dor em texto.
Este ensaio não pretende abordar a história narrada em “Noites Brancas”, um pequeno livro que trata do encontro entre um homem e uma mulher, não de um mero encontro, mas de um decisivo e fatídico encontro que marca a alma de um homem dilacerado e de uma mulher que não percebe o quão machucada no íntimo se encontra, promovendo um impactante desgosto naquele que acreditou ser a salvação que o libertaria da solidão. O tema dostoievskiano, caro a Paul Schrader, o cara certo que em apenas sete dias rabiscou em guardanapos a ideia de um roteiro que viria ilustrar um marco no cinema sob a direção de Martin Scorsese*, revela os tormentos daqueles que provocam a própria solidão e como procuram criar um mundo solipsista trágico, vivendo reclusos e invisíveis em relação à sociedade ou destacando-se ao extremo quando a tolerância interior se esgota, provocando o caos por onde passam.
O sonhador de “Noites Brancas” é um daqueles tipos que de forma breve aparecem e somem, deixando um rastro de seus aspectos caracterológicos e que representam aquela figura do subsolo que carrega tanto o céu quanto o inferno dentro de si, com uma lucidez extraordinária e uma ingenuidade não resolvida dos tempos de infância. E o céu interior do sonhador é que nos ilumina nas páginas finais desse pequeno livro, trazendo uma provável esperança de amor à humanidade através da provação que a tentação de um possível amor que acenava o lançou à realidade fria e insensível quando aquela jovem e apaixonada Nástenka revela que é apenas alguém que lhe entregou ilusoriamente os sentimentos.
A dor desse amor não correspondido, remontando ao desamparo infantil, abriu esse céu em lágrimas, que ri mais uma vez do solitário que condenou a si próprio num inferno que lhe é necessário e que, por algum motivo, procura justificar o 2 + 2 = 4. Tal escolha, como testemunhamos na figura de Travis Bickle, o sujeito saído do roteiro de Schrader citado acima e que ganhou vida em Taxi Driver, é um problema para a psicologia, porque não cabe apenas a interpretação das causas geralmente inconscientes que culminam no solitário, mas também por qual motivo procuram viver como errantes eternos em martírio.
Provavelmente um profundo ato de fé, na certeza de que uma nova ordem pode saltar aos olhos do mundo, assim como Cristo propôs a espada para a mudança, ou como Travis, através de um revólver, procurou jogar toda a escória de uma Nova York degradada numa enorme privada e dar a “descarga” psíquica... O tema de “Noites Brancas” terminou feliz, com o céu trazendo a esperança, mas cabe ao leitor encontrar esse sonhador em outras obras de Dostoiévski para saber se este céu é possível sem o uso do sabre.
* Taxi Driver. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Estados Unidos, 1976.
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