Extremos do rebaixamento moral à loucura.
- alexandremorillas65

- 3 de jan.
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Atualizado: 4 de jan.
O papel do surto na arte de Dostoiévski.
É conhecida a célebre máxima dostoievskiana de que, como artista, ele e seus colegas, sem sombra de dúvidas, haviam saído de “O Capote”, de Gógol. Essa história emblemática, publicada no ano de 1842, assim como “O Diário de um Louco” (1835) e “O Nariz” (1836), trazem o gérmen de um tema recorrente nas histórias de Dostoiévski, a saber: a desintegração do psiquismo provocada por um forte sentimento de fundo moral, perturbador a ponto de fazer com que o reservatório primordial das características selvagens da humanidade inunde a consciência, provocando as tão famosas crises que assolam suas personagens, levando-as ao total delírio, onde o padrão da linguagem é comprometido, quão fortes são as descargas que sofrem quando as causas mais insuportáveis que conseguiam esconder de si mesmas passam a afetar diretamente o sistema nervoso central.
O segundo livro de Dostoiévski, intitulado “O Duplo” (1846), que provocou grande incômodo em Vissarion Bielínski, apresenta o estilo gogoliano transformado em um drama terrível na vida de um certo Yákov Pietróvitch Golyádkin, conselheiro titular, fadado a não progredir socialmente¹, que, ao despertar pela manhã, demonstra, aos olhos do leitor, uma agitação interna que o mantém semiacordado entre os resquícios oníricos e os estímulos do quarto onde se encontrava e que o fez, após alguns minutos, levantar e tagarelar desordenadamente consigo próprio, conforme sua consciência começasse, aos poucos, a despertá-lo para o novo dia.
O desenrolar da trama continua a tecer o estado mental de Golyádkin, que se sente observado por dois funcionários que estavam em outra carruagem e procura se esconder por ser encontrado de “certa maneira”, envergonhado em relação a alguma coisa muito constrangedora. O ritmo frenético da narrativa acaba levando o leitor para um emaranhado, onde a linguagem começa a se embrenhar por caminhos em que não sabemos mais se a personagem está em seu juízo perfeito ou se realmente está em devaneio.
Dostoiévski já havia percebido que o padrão de vida e as condições a que estavam sujeitas as pessoas na Rússia após a chegada do capitalismo estavam prejudicando seriamente o estado mental, principalmente daqueles que, como Golyádkin ou Mákar Diévuchkin, não teriam oportunidade de melhorias de acordo com suas patentes. O grau de humilhação suportado por essa categoria levou muitos a um colapso nervoso, provocando um aumento de doentes mentais ou, como afirmou Franz Kafka a seu amigo Max Brod, de que as personagens de Dostoiévski não eram loucas, mas incidentalmente loucas.
Os conflitos emocionais, de certa maneira, parecem exercer uma pressão no sistema sensório-motor ligado à fala, fazendo com que a sintaxe se perca, onde as personagens produzem uma série incoerente de frases, decorrentes da aceleração devido à configuração natural do uso da linguagem, que é interno à mente e é completamente fragmentada, não tendo relação alguma com a comunicação², que nas personagens de Gógol e de Dostoiévski aparece prejudicada.
As observações de Freud acerca das psicopatologias, como lapsos de linguagem ou atos falhos, também podem indicar que as fortes perturbações que essas personagens ilustram elevam essas falhas a um ponto em que os impulsos que as fazem falar consigo mesmas sem parar provoquem uma espécie de loop em excesso desses fatores. Isso talvez confirme o incidente ao qual Kafka se referiu: a consciência moral exercendo uma forte pressão por meio de um ambiente que confirma o tempo todo a posição degradante de uma parcela da sociedade que não teria condições de elevar-se passaria a ser merecedora de um castigo eterno, em meio às humilhações decorrentes dos preconceitos e exposições a que estaria sujeita, e à eterna necessidade de afeto precariamente satisfeita, além de um gatilho impulsivo inevitável de se sentir acima daqueles que se encontram mais abaixo ainda de suas posições, buscando um equilíbrio para sua sanidade.
Essa luta interna aparece na impaciente espera de Akáki Akakievitch para ser atendido no gabinete de um figurão, para ter alguma posição sobre seu capote roubado; no homem do subsolo, que ficou à espera daqueles que não o queriam por perto, sentado, olhando para um relógio e compreendendo que estava sendo rejeitado; na expectativa do protagonista de “Noites Brancas”, suportando a indiferença de Nástenka; e em outros quadros dolorosos, como o episódio em que Pokróvski corre atrás do caixão do filho debaixo de chuva ou da constrangedora situação em que o alto funcionário Ivan Ilitch Pralínski, embriagado, penetra na festa de casamento de seu subordinado Pseldonímov e acaba apagando no leito de núpcias.
No exemplo de Golyádkin, percebe-se que os funcionários de altas patentes provavelmente sejam os gatilhos que provocaram a desordem interior na luta em vão com forças que jamais seriam vencidas pelo acaso, levando-o a um inferno não muito diferente do suportado por muitos neuróticos que buscam ideais que nunca serão alcançados. Golyádkin representa o fim daqueles que ainda preservam um mínimo de sanidade, mas que, em algum momento, sucumbem em função de uma moral imperiosa e, ao mesmo tempo, burlesca.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O duplo: poema petersburguense. Tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2011, p.09.
CHOMSKY, Noam. A ciência da linguagem: conversas com James McGilvray. São Paulo: Editora Unesp, 2014, p.26.
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