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Dostoiévski e Tolstói: a felicidade indescritível - um lampejo divino.

  • Foto do escritor: alexandremorillas65
    alexandremorillas65
  • 8 de jan.
  • 3 min de leitura

Um sonho de um homem nada ridículo : para onde Ivan Ilitch teria ido e como faria uso da felicidade.



A fervorosa fé de Dostoiévski no outro mundo abre um leque de pesquisas para além da religiosidade, onde o propósito humano sobre a Terra torna-se uma questão inevitável. No degredo, ocorreu uma ideia ao escritor russo: caso uma prática desumana, por parte de alguém, ocupasse a vida de um homem com atividades desprovidas de total sentido — como transferir água de uma vasilha para outra, por exemplo —, concluiu que o prisioneiro tiraria a própria vida em poucos dias ou cometeria diversos crimes, a ter de passar por essas humilhações¹. Vê-se que o cerne do propósito humano no mundo é encontrar sentido na vida, mas, para muitos, este ainda deixa muito a desejar, já que os propósitos são, ao longo das vezes, alvos de interferências alheias desde cedo na vida.

Alcançar a tal felicidade sentida por Ivan Ilitch antes do último suspiro, no sonho de Stavróguin ou antes do ataque epiléptico do Príncipe Míshkin, foi tema de abertura em "O Mal-Estar na Civilização", desenvolvido por Sigmund Freud. O pai da Psicanálise foi convidado a procurar em si mesmo as fontes de um prazer oceânico, mas em vão, devido às alegações de um cientista que, através desses meios, não teria muito a dizer sobre sentimentos. É compreensível as resistências nesses casos, já que o acesso espontâneo à fonte da felicidade seria possível através de forte sofrimento significativo, que mudaria tudo na vida, levando o indivíduo a um antes e um depois, ou, como C. G. Jung definiu, uma personalidade anterior, denominada como nº 1, e a nova como sendo a nº 2, ou “o seu Zaratustra”².

As duras penas que o indivíduo começa a suportar logo na infância, decorrentes de um processo de repressão dos impulsos, acabam provocando distorções sobre o verdadeiro sentido individual do destino e de suas escolhas. As amarras sociais, como os deveres — muitos deles sentimentais — da estrutura familiar, das expectativas lançadas sobre os ombros infantis com as caras e tons de voz ameaçadores de que há um mundo onde não se pode perder tempo, de que há um concorrente à espreita prestes a devorá-lo, e também a ideia da existência de um céu e um inferno, geram traumas ininterruptos que configuram a consciência e o preparam para a vida cotidiana.

A provação de Ivan Ilitch remonta à vida dura que lhe pregaram e à ideia de que, no final, não podemos sair deste mundo sem algum acréscimo que nos preencha para seguirmos merecedores das benesses que nos faltaram, mas que para outros “ocorreram em abundância”. Essa ilusão de que o outro sempre se sai melhor tem forte raiz numa cultura que cega a massa de indivíduos incapazes de olharem para si e para o mundo circundante, e Dostoiévski pôde converter esse mundo no modelo prisional no qual se encontrava, revelando que a vida entre as paliçadas não era nada diferente daquela fora de seus limites.

Assim sendo, a busca pelo ideal de felicidade acaba conduzida por uma norma coletiva que nada tem em comum com a nesga de felicidade sentida pelas personagens citadas acima, mas que apresenta alguma relação psíquica com o sofrimento, e que é confirmada com o símbolo máximo do cristianismo, que tem em Jesus o arquétipo das paixões. Mas mesmo entre os que narraram suas experiências, ou naqueles em que podemos identificar ou suspeitar terem recebido a graça divina, continuam necessitando da dor como um guia para que sejam mantidos em equilíbrio, para não enlouquecerem. Isso talvez justifique o que Freud, aquele que afirmou não conseguir encontrar sinais de tal sentimento oceânico dentro de si, disse: que a neurose não surge para que seja curada, mas elaborada.



  1. FRANK, Joseph. Dostoiévski: os anos de provação, 1850–1859. Tradução de Vera Pereira. 2. ed. rev. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, pp. 226–227.


  1. JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Organizado por Aniela Jaffé. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.99.

 
 
 

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