Dostoiévski e o Cristo: A Boa Nova.
- alexandremorillas65

- 23 de jan.
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A ação contra a comodidade.
O cristão Dostoiévski trouxe uma provocação para seus leitores: uma versão dos registros do Novo Testamento em que uma pessoa conhecida de longa data defendia as guerras¹. Este gentil e pacífico paradoxalista citou o desânimo e o tédio em tempos de paz, e como ambos afetam a vida dos indivíduos e de toda uma sociedade. Segundo este senhor, em tempos de guerra, as pessoas recobram o ânimo, elevam o espírito, porque algo veio para sacudir a poeira do tapete, para virar do avesso todo aquele marasmo que tira toda a vitalidade e que somente uma guerra pode eliminar, para que as forças internas sejam renovadas.
Para quem ainda vivia sob uma vida regrada, sob a Lei de Moisés, a Boa Nova proposta pelo Cristo não era uma vida segura, com garantias e certezas preestabelecidas, mas sim o caos e a incerteza. Os acomodados na antiga rotina encararam a nova proposta com desespero, mas este sentimento não passava de reação negativa a uma desordem necessária para o espírito. O caos nada mais é que a ruptura de um estilo de vida ultrapassado, que acaba gerando problemas em acúmulo e que, com o passar dos tempos, promove uma ameaça ao espírito criador.
Tanto a ciência como a arte poderiam estar impregnadas de vícios que converteriam a essência, produto da natureza, em artifícios — terreno para o charlatanismo e a frieza utilitarista pregada com fervor por Tchernichévski. No teatro russo, precisou aparecer um Stanislávski para deslocar os atores acomodados de suas zonas de conforto para começarem a agir, se quisessem viver o verdadeiro espírito artístico e transformar suas vidas. Também na teoria da arte, Pável Florensky propôs a derrubada da perspectiva linear para abrir caminho a uma perspectiva inversa², que elimina os detalhes³ como guias que obstruem as alternativas necessárias ao espírito, impedindo-o de trilhar regras que nada dizem respeito ao processo criador.
Raskólnikov e o Cristo de Nikos Kazantzákis podem ser interpretados como os pregadores da nova ordem, mas as forças para livrarem-se dos preconceitos de uma vida rotineira ainda não lhes permitiriam dar o primeiro passo. A machadada na velha usurária ainda era uma ideia, e não o passo inicial, que dependia da provação após o ato, da mesma maneira que a pregação do Cristo demasiado humano do escritor grego mal conseguia pôr em prática sua ideia.
Para o paradoxalista, após uma guerra, todos os setores se renovam, o espírito de união é fortalecido, a mesquinharia seria substituída pela confiança mútua. Símbolos, como um marco de uma nova Era, seriam erguidos para manter a chama acesa — um remédio cujo efeito é duradouro, mas que está fadado a um prazo de vencimento, porque o costume e a rotina indicariam que uma nova guerra deveria ser travada para novas ressurreições. Assim é a natureza do espírito. A dor é necessária, o incômodo é bem-vindo, a Boa Nova lança os espíritos acomodados para o infortúnio, para que busquem dentro de si mesmos novos rumos, preservando a espécie.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Paradoxalista. In: BIANCHI, Fátima (org.). Contos reunidos. Tradução de Priscila Marques et al. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2018. p. 347.
FLORIÊNSKI, Pável. A perspectiva inversa. Tradução de Neide Jallageas e Anastássia Bytsenko. São Paulo: Editora 34, 2012, pp. 46–47.
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