Sistema Stanislávski: um sistema humano.
- alexandremorillas65

- 13 de ago. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 2 de out. de 2025
O Sistema humano de aquisição.
No Sistema Stanislávski, o uso das capacidades cognitivas para a imaginação criativa é infinito, e ocorre no período de latência, ou seja, inconscientemente passamos da preparação à construção das características impressas fisicamente, seja para a composição de uma personagem, ou para outras finalidades. O ser humano nasce dotado de uma infinidade de capacidades para uso, e grande parte se encontra inativa, devido ao imobilismo muito bem observado pela professora de teatro Stella Adler, que percebeu o quanto seus alunos surgiam com frequência dilacerados, tanto física, quanto emocionalmente. Antes de entrarmos nesta questão, primeiramente é necessário apresentar o Sistema através dos tópicos deste blog, e com o que este não pode ser confundido: com o "Método". Konstantin Serguêievitch Aleksêiev, mais tarde, Konstantin Stanislávski, fez sua estreia nos palcos no ano de 1877. Percebeu muito cedo como os modos de atuação eram muito artificiais e que dificilmente convenciam. Apontava os maneirismos dos atores em cena, dizendo nunca ter visto pessoas em público falar, andar, girar a maçaneta ou sentar, como estavam representando. Por este motivo, procurou trabalhar com os atores a criação exterior das personagens em direção à vida interior de um papel, livrando os atores dos gestos excessivos, supérfluos. Através dos trabalhos, os alunos tomaram consciência das potencialidades corporais que o inconsciente oferece, um leque de infinitas possibilidades que brotavam ” do nada”, desde que estivessem empenhados na construção física das personagens. O nome Sistema faz parte daquilo que Stanislávski dizia ser a natureza; não concordava com o termo, por passar a impressão de que algo fora inventado. O ator e diretor russo apenas fez inúmeras anotações sobre o que examinou nele e nos atores no processo criativo.
O uso das capacidades cognitivas.
Stanislávski antecipou o que a ciência cognitiva vem investigando até os dias de hoje, mas nunca fez do Sistema, uma teoria científica. Procurou afastar qualquer vestígio teórico sobre aquilo que observou praticamente durante toda sua vida profissional. Afirmava que uma gramática da arte teatral era inexistente, o inverso, se olharmos para a biolinguística de Chomsky , que propôs durante um período de décadas uma gramática gerativa que explicasse as questões cartesianas do uso criativo da linguagem, que para ele, permanecem um mistério. Portanto, é o uso das capacidades que importa para o artista quando compõe as características físicas e psicológicas da personagem, e não a busca do entendimento sobre o que é o Sistema, e onde este é processado no corpo . Todo comando consciente tem como base o trabalho de concentração que Stanislávski utilizou dos ensinamentos do Hatha Yoga, que permitem fazer uso do pensamento inconsciente. As transformações corporais e o afloramento dos traços psicológicos, ocorrem no período de latência, numa zona inacessível à consciência, numa região onde as características coletivas despertam em direção ao tecido orgânico, e passam a vestir aquele corpo.
O Sistema não é um método.
Para uma possível definição, não sobre o que é o Sistema propriamente dito, mas acerca de seu papel na vida cotidiana, é necessário esclarecer à guisa de prefácio, com o que o Sistema não pode ser associado, ou mesmo confundido: como uma metodologia. Primeiramente não podemos falar do Sistema, sem apresentar um esboço mesmo que pálido, sobre a noção das capacidades humanas. Stanislavski, por mais que seja apontado como um precursor das descobertas da ciência cognitiva, jamais teve qualquer envolvimento com o meio científico, com o objetivo de teorizar sobre um universo infinito que é o imaginário humano, e o poder que emana desse fenômeno que desafia tal ciência, em especial, a área interessada na computação da linguagem. O biolinguista Noam Chomsky, revolucionário que provocou uma mudança paradigmática radical na linguística nos moldes kuhnianos, voltou o olhar para o modismo das teorias da linguagem que gerou uma euforia no final dos anos 1940, devido aos avanços tecnológicos que envolviam matemática teórica da comunicação e linguagens de computação que pudessem simular estruturas mentais de forma simplificada, o que Chomsky apontou como sendo “mais do mesmo”. Chomsky dissuadiu os interessados na cibernética em perseguir um sistema fenomênico que apresenta uma realidade desconhecida, entendida no sentido de "como" usamos a linguagem (ver: desempenho ), a qualquer tentativa de extrapolação quantitativa, frente a um quadro nada promissor no sentido qualitativo, ou seja, não há meios de explicar através de desenvolvimentos de programas, uma estrutura que nenhum sistema artificial no mundo consegue simular, por faltar em sua arquitetura, algo que só os humanos possuem, que é o fenômeno da distância estrutural. Exemplo: "Silenciosamente, os gatos que brincam, caçam ". A distância linear, revela que a palavra "silenciosamente" está mais próxima de "brincam, do que de "caçam", mas a distância hierárquica, confirma que internamente, o cérebro encontrou um caminho mais curto, revelando que "caçam" está mais próximo porque é o núcleo da ação, o verbo que encerra o sentido. Isso permanece um mistério entre os cientistas da linguagem, que não conseguem teorizar como a ordem hierarquia provoca modificações nas bases neurobiológicas da sintaxe, por trás da ordem linear. Portanto, o chamado “Método”, atribuído às observações de Stanislávski, precisa ser esclarecido, não apenas por um recorte do Sistema provocado por um de seus alunos (Richard Boleslávski), mas também, o que o uso desse substantivo implica psicologicamente naqueles que estão trabalhando a natureza em si próprios. Um “Método” Stanislávski, seria um conjunto de regras que contivesse todos os elementos que explicassem o fenômeno da alma humana, e seguir nessa linha, como propõem Chomsky e seus colaboradores, que apenas arranham a ponta desse iceberg infinito, seria humanamente impossível. Assim sendo, não há meios de explicar para alguém que ela deva fazer desse ou daquele modo, seguindo uma receita linear, já que os meios que favorecem a execução de uma construção caracterológica, são inacessíveis à consciência, e mais rápidos do que podemos imaginar. É a distância hierárquica que procura o caminho mais curto para a caracterização física, jamais a linear, seguindo receitas metodológicas, desde que façamos uso dos recursos inconscientes através do consciente, e não tentemos entender "como" expressa, ou o que é o Sistema de fato.
O "Método" não é de Stanislávski.
O chamado “Método”, surge nos Estados Unidos como uma distorção do Sistema, provocada por um dos colaboradores de Stanislávski, o ator polonês Richard Boleslávski (Ryczard Srzednicki), que funda no ano de 1923, em parceria com outra aluna do mestre russo, a atriz Maria Ouspenskaia, o American Laboratory Theatre. Esse método continha o conceito da memória afetiva - que Stanislávski absorveu do psicólogo francês Théodule Ribot - , e que Boleslávski tomou conhecimento nos anos em que trabalhou como ator para a companhia teatral de Stanislávski, no Teatro de Arte de Moscou. Essa linha metodológica de trabalho ganha força com Lee Strasberg, ligado ao Group Theatre e Actors Studio, que acompanhou a turnê do TAM pelos Estados Unidos, se inteirando do Sistema pelo mediador Boleslávski, cujos ensinamentos e também os de Ouspenskaia, divergiam dos do diretor russo numa etapa posterior de seu Sistema, sendo que este já se referia à vivência através das ações físicas, e não mais sobre um psicologismo, forçando experiências emocionais passadas. Stanislávski, procurado mais tarde por Stella Adler, que se queixou de seu aprendizado indireto via Boleslávski/Ouspenskaia para corrigir os erros que o Método pregava, passou a trabalhar com a atriz para recuperar a reputação de seu Sistema. O Actors Studio, segundo Elia Kazan, aderiu a uma metodologia com base no comportamento do meio social americano. Kazan referiu-se principalmente aos maneirismos pregados por esse estúdio, que Stanislávski combatia em seu Sistema. O cineasta Glauber Rocha e o dramaturgo Dias Gomes, também chamaram a atenção para os maneirismos pregados no Actors Studio, que vendiam essa ideia como artigo de consumo. O que andaram fazendo fora das vistas de Stanislávski, não tem nada a ver com o verdadeiro Sistema. Portanto, uma metodologia implica um desvio para aqueles que buscam uma solução. A noção de um método, seja ele qual for, nos remete a ideia de que a receita esteja vindo de fora, de alguém que nos instrua mediante uma sequência de passos que seguimos, como se fossem funcionar de uma forma generalizada. Assim, ignoramos que somos únicos em nossa estrutura física e mental, e que nascemos com recursos que acabam não sendo usados, porque nossa atenção está completamente para fora de nós próprios, e não era isso o que Stanislávski tinha em mente quando orientava seu grupo de atores durante o processo de preparação e construção da personagem. O diretor russo exigia que seus atores explorassem ao máximo, dessem o máximo de si mesmos, quando envolvidos em seus próprios laboratórios, e devolvessem no palco, aquela característica inédita revelada, que dormitava no inconsciente, e que passou a ser uma parte impressa em seus corpos caracterizados.
A natureza criadora orgânica.
Tecnologia é a capacidade que temos de fazer uso de recursos inatos e criar coisas, ou transformá-las; é uma característica inata. O potencial humano é infinito e cada vez mais nos deparamos com situações que jamais poderíamos imaginar sermos capazes de fazer. Quando Konstantin Stanislávski apontava para o Sistema afirmando ser este a própria natureza, ele estava revelando aos atores que o corpo não depende de nenhum mecanismo que pode ser compreendido cientificamente, mas compreendido como um instrumento de uso, ou seja, atuar exige uma compreensão consciente de ações físicas, que acessam a compreensão inconsciente de uma estrutura misteriosa que não pode ser teorizada, porque não nos fornece qualquer evidência de sua natureza. Portanto, todos somos atores em relação ao meio circundante, e tudo o que fazemos fisicamente através das funções fisiológicas de nosso papel social, nos afeta psicologicamente, e seu resultado é impresso em nosso corpo, fixando-nos uma caracterização física e psíquica. Stanislávski dizia que, quanto menos o ator mostrar, melhor. Essa máxima foi compreendida pelo ator Robert De Niro, pioneiro na caracterização física exibindo físicos distintos num mesmo personagem. Para melhor esclarecer essa prática, as pessoas devem deixar de lado o “como”, dispensar perguntas do tipo “como” o ator conseguiu se caracterizar. O “como” é tarefa do inconsciente, e não cabe ao ator, e muito menos ao cientista, tentar compreender uma função que a natureza não revela, mas que pode ser usada para atingir resultados. Logo, as mediações propostas por Stanislávski oferecem uma bússola para que o ator adquira a disciplina de auscultar seu objeto de trabalho, seu corpo, enquanto se empenha de maneira determinada à natureza da personagem que está construindo, até que se encaixe no papel. O mesmo pode ser feito fora do âmbito teatral. Você que está lendo este texto agora, pode fazer uso de suas capacidades que se encontram em estado latente. Conhecer o Sistema é conhecer uma ínfima, mas enorme parte de si mesmo.
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