Chomsky e Descartes: o inatismo como recurso na produção da linguagem.
- alexandremorillas65

- 25 de set. de 2025
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Atualizado: 11 de jan.
A linguagem humana é gerativa?
Os aparatos tecnológicos estão ocupando o mundo há pelo menos quatro séculos, deslumbrando as pessoas e facilitando suas vidas, além de ofertarem entretenimentos. Os chafarizes dos renomados palácios europeus que adornavam seus jardins exibiam as mais encantadoras figuras que se moviam sozinhas com suas engrenagens hidráulicas, tornando-se uma febre na moda da época. O filósofo matemático René Descartes mudou o paradigma da visão de mundo ocidental sobre o funcionamento das coisas, quando seu pensamento passou a ser o modelo ideal de entender a vida, defendendo que o corpo humano era um sistema mecânico, uma máquina complicada, apesar de apresentar um diferencial em relação aos autômatos e animais, que era a capacidade de usar a linguagem, para juntar conceitos de uma forma inédita e criar frases complexas. A noção cartesiana desse diferencial humano atraiu a atenção do biolinguista Noam Chomsky que, partindo dessa concepção, junto às de Wilhelm von Humboldt, desenvolveu um programa na década de 1950 para o estudo da linguagem, denominado Gramática Gerativa. Esta teoria designou ao cérebro um suposto órgão de linguagem que produz sentenças que podem ser analisadas com a aplicação de uma função matemática recursiva, que explica como o produto gerado estaria estruturado gramaticalmente. Mas o que não entrou como objeto de análise nesta teoria determinística foi a questão de como o ser humano usa a linguagem. O uso criativo da linguagem não compete ao campo científico, porque este não tem nada a dizer sobre o que está escondido por trás desse fenômeno. O uso da linguagem humana é um sistema orgânico que escapa a qualquer formalismo que pretenda esclarecer seu funcionamento. Não há modelos computacionais que consigam alcançar um nível de paridade com a capacidade humana em termos de processamento, que para Chomsky, no caso das redes neurais, “as transmissões seriam rápidas demais, mas lentas para os padrões que o cérebro precisa realizar.” ¹ Não apenas isso, o próprio modelo de gramática gerativa malogrou pelo fato de as sentenças terem estruturas diferentes umas das outras. Pegando um exemplo no idioma português, uma oração relativa é diferente de uma interrogativa. O pronome “que” na primeira oração, é fixo e não pode ser movido para outras posições, a tornando agramatical, como no caso, “O carro azul que pertence a José está estacionado do outro lado da rua.” Se movermos o “que” para outra posição, a sintaxe se perde junto com o sentido que atribuímos a ela: “Que pertence a José o carro azul está estacionado do outro lado da rua.” Quanto à interrogativa, esta permite que o pronome transite em várias posições. Como exemplo, temos: “Que diabo é isso?”, “Pode me dizer o que isso significa?” ou “ Trouxe isto por quê?”. Isso foi um dos fatores que fizeram com que a programação teórica fosse revista, pois a análise da estrutura gramatical das sentenças perdeu seu caráter universal, o que fez Chomsky pegar carona nas concepções modulares de Jerry Fodor, apelando para a interpretação. A mente no caso, capta o que ouve e procura interpretar a informação da melhor forma possível, porque é assim que a natureza da mente trabalha. Logo, as sentenças gramaticais deram lugar às interpretações que não podem ser explicadas cientificamente. Assim, Chomsky atualizou o modelo de análise para o chamado Programa Minimalista, que deixou o status de teoria, passando a ser uma abordagem que eliminasse as redundâncias que produzem complexidades, permitindo maior flexibilidade às perguntas que pudessem oferecer respostas de toda ordem possível entre a comunidade dos linguistas. É claro que as respostas não são conclusivas, mas servem como meios de aperfeiçoar modelos para projetos cada vez mais consistentes que ofereçam questões de relevância. Entender como a linguagem é usada demandaria olhar para um vespeiro que nenhum recurso, seja qual for, da psicologia ou da matemática, pudesse isolar, dada a complexidade que não oferece evidências de seus efeitos no objeto interno.
CHOMSKY, Noam. O segredo das palavras/Noam Chomsky, Andrea Moro. Tradução de Gabriel de Ávila Othero, Sergio de Moura Menuzzi. São Paulo: Unesp, 2023. p.46.
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