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Amor e ódio na obra de Dostoiévski.

  • Foto do escritor: alexandremorillas65
    alexandremorillas65
  • 15 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de dez. de 2025

A ambivalência de sentimentos antes de Freud.


A conturbada vida dos apaixonados saídos das páginas de Dostoiévski contém um rico material psicológico. O estilo realista do artista é o laboratório sobre o qual o pesquisador pode se debruçar à vontade e extrair tudo o que puder, à sua maneira, do vasto material que a obra completa oferece no campo dos relacionamentos complexos. Abordo aqui o que há de mais explícito nessas relações, como a irascível paixão de Dmitri Karamázov, que desposa a amante do próprio pai, ou a desenfreada relação entre Rogójin e Nastácia Filíppovna, que envolve secretamente provocações àquele objeto amoroso que não correspondeu a seus anseios.

Tais características revelam as sutilezas que esses amores, dentre eles os platônicos, apontam, como o sadismo e os requintes de morbidez da auto-humilhação. Assim, consultamos a “galeria dos desiludidos e perversos”, onde podemos encontrar o mal correspondido Makar Diévuchkin, de "Gente Pobre"; o sonambúlico Pável Pavlótich, que viaja certa distância para vingar-se; a já citada Nastácia Filíppovna e sua desilusão em relação a Totski, que, substituído por Míshkin, inconscientemente o mira em sua desforra; os humilhados e ofendidos corroídos pelo ciúme intenso; e a clássica Nástenka, de "Noites Brancas", que tortura com seduções seu confidente, o qual termina em uma situação nada boa, como podemos ler na alma da pobre Liza, de Karamzin, ou da pequena desiludida em tenra idade, Nietotchka.

O problema central das crises nas relações conjugais ou das amizades se encontra muito antes da sorte que espera essas desamparadas personagens. Freud, em "Inibições, Sintomas e Angústia", procura explicar os meandros que fazem percorrer os impulsos instintivos que acabam desencadeando sintomas sujeitos a todo tipo de consequências.

Dostoiévski pode ser encontrado em meio às suas criações, por ter passado maus bocados com sua primeira esposa, Mária Dmitrievna, e com a suposta amante Apolinária Súslova, protótipo da personagem Polina, de "O Jogador", que alude às impressões da infância do escritor, no caso, a autoridade paterna — traço marcante no caráter de Apolinária, mulher de personalidade forte que batia de frente com as convenções de seu tempo, que criticava abertamente, não tolerando pessoas pobres de espírito e que não tomavam atitudes além dos palavrórios abundantes¹.

Aleksiéi Ivânovitch, que encarna o próprio Dostoiévski, vê-se preso a uma escravidão sedutora por parte de uma mulher que o dominava por completo, e ele não tinha a menor consciência de que estava sendo regido pela culpa desconhecida que o atormentava. Esse sentimento de culpa, que Freud definiu como sendo o medo infantil da perda do amor do mundo externo, já se encontra manifesto como consequência de uma ação criminosa que a desencadeou, e que a obsessão pela roleta acabou deslocando esse sentimento para um “segundo plano”, fazendo o protagonista não mais investir psiquicamente suas necessidades afetivas na figura de Polina como representação mental de objeto. Polina passa a não significar mais nada para ele, mesmo sabendo, no final, que ela o amava.

O caso de Nastácia Filíppovna, semelhante ao de Nietotchka, que envolveu veladamente, pelos arranjos artísticos que burlaram a censura, a questão do incesto, levou a personagem — crente em sua inocência recatada, de que estava sendo preparada para ser desposada por Totski, que a acolheu como filha — a reagir impulsiva e desavergonhadamente com um sentimento de ódio, buscando vingança através de provocações, envolvendo-se com o que havia de vulgar na sociedade e sempre promovendo escândalos morais. A personalidade dominadora, encarnada numa louca, não foi o suficiente para despertar em Totski o que ela havia idealizado, culminando seu destino em desgraça, antes mesmo que a culpa a afligisse, salvo suas idas para os braços de Míshkin, mas que não eram suficientes para que a sensação de culpa despertasse por completo.

Wilhelm Stekel apontou essas características nos amores não correspondidos em sua obra "A Mulher Frígida", na qual a luta entre os sexos, sobre quem predomina e quem se deixa dominar, desencadeia sintomas de frigidez e impotência, relacionados ao contexto particular dos parceiros. As provocações inconscientes, muito constantes entre casais inseguros, podem ser conferidas na obra "O Desprezo", de Alberto Moravia, cinematografada de maneira fiel por Jean-Luc Godard, onde a desintegração da relação, convertida de amor em ódio, nunca termina em final feliz.

Os desamparados provocam os piores sentimentos nos parceiros, nos quais a crueldade calculada mira os pontos fracos que fazem com que estes manifestem desesperadamente o medo do abandono e, dependendo da intensidade do determinante de dor, acabam tirando a própria vida, ato reconhecido por Freud como ápice da punição em alto grau contra o objeto amoroso internalizado no próprio ego, e que muitas vezes, de forma conjunta, também é externalizado em ações misóginas e misândricas, enquadradas nos crimes passionais.

Também entre os homens, no caso da disputa por Grúchenka entre Dmitri Karamázov e seu pai, onde mais uma vez o tema do incesto aparece, duas feras procuram o embate destrutivo pela posse da mulher amada (a mãe), que desperta o instinto de morte quando o objetivo é a obtenção do afeto do objeto desejado e o afastamento do rival. Dostoiévski conhecia muito bem os mecanismos inconscientes, a ponto de torná-los explícitos sem causar celeuma na imprensa, mecanismos tais que determinam as ações voluntárias na escolha de seus destinos, sem que se saiba a estrutura emocional por trás, contida pela censura psíquica.

Makar Diévuchkin poderia muito bem, no calor da emoção, tomar alguma atitude em relação a Varvara Alieksiêievna, que lhe respondia com bem menos linhas se comparado à torrente que aquele despejava sobre as folhas enviadas. Mas tudo dependia da estrutura interna que determinava a atividade e a passividade de cada personagem, que ilustram suas características psicológicas.

A ambivalência de sentimentos é uma das forças motrizes na obra de Dostoiévski e instiga o leitor a fazer uma revisão sobre suas próprias questões, já que é impossível não encontrarmos traços de nós mesmos registrados numa rede de memórias que nos marcaram pela vida e que, ao lermos cada linha, somos nós que damos vida aos nossos conflitos interiores mal resolvidos, ressignificados, tolerados, enfim…


  1. FRANK, Joseph. Dostoiévski: os efeitos da libertação (1860–1865). Tradução de Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002, pp. 354,356.

 
 
 

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